Torre de Nerone, 24 de janeiro de 1945

Inverno nos Apeninos
Já perdi a conta dos dias que estamos na linha de frente. O Inverno veio e foi-se sem que nós saíssemos dos nossos buracos. Para combater o frio, recebemos capas de pele. Pois bem, estas capas não vieram certas. Só recebemos 100, quando a companhia tem 200 homens. Disseram eles que havia falta das mesmas. Quem passasse por Pistoia e por Porreta Terme veria todos aqueles que trabalham nos QG, que têm um belo fogo para se escaldar de dia e de noite, que têm boas camas para dormir, envergando lindas capas de peles brancas. Por aí calculem como devemos estar nós da linha de frente. Nosso major, cujo apelido era “Sarapico”, não tem iniciativa. Cumpre todas as ordens recebidas, sejam elas as mais absurdas. Felizmente foi ser S-4 do regimento. O antigo já não funcionava, não importa que ele também não funcione.
O atual comandante do batalhão é formidável. É macho mesmo. Foi o tal que fechou o cinema Odeon, em São Paulo, num dos bailes de Carnaval. O nosso capitão também é barreira. Com uma dupla dessas nós não precisamos ter precauções, pois não nos mandarão fazer aquilo que não for perfeitamente compatível.
No Inverno muito sofremos. Porém a sina do homem é sofrer mesmo. A neve aqui subia a uma altura de cerca de um metro. O frio era intenso. A alimentação nem sempre podia ser quente. Aliás, quase sempre era ração fria. O frio a tudo penetrava. Foi uma vitória. Todos que lá estiveram podem se considerar heróis, pois deram à pátria, além da vida, a saúde.