Nós vimos a cobra fumar


Torre de Nerone, janeiro de 1945

 

Chamo de combatente aquele que vive na linha de frente, que dorme em fox-hole, que come comida de lata, que enfrenta a morte a todo momento, seja vinda de uma metralhadora tedesca, seja de uma granada de canhão. Aqueles que vivem na retaguarda, envergando belos uniformes, tomando banhos perfumados todos os dias, comendo fartos banquetes, dormindo em confortáveis camas, tendo belas estufas para se aquecer, acompanhando a guerra em grandes mapas pregados na parede e pedindo todos os dias para que a guerra dure mais 30 anos, nós chamamos de saco B.

Vou explicar porque eles tomaram esse nome. Note quando chegamos à Itália. Tínhamos dois sacos: o saco A e o saco B. O saco A sempre nos acompanha, é onde colocamos nossos objetos de primeira necessidade. O saco B ficou para trás, na base de Livorno.

Aliás, os saco B sabem que são inferiores a nós. Eles têm um grande complexo de inferioridade. Basta chamar um deles por este nome para que ele passe três noites sem dormir.

Vou agora contar o que me relatou o capitão quando fui a Florença. Lá, para lidar com o hotel dos brasileiros, há um major, dois capitães, três tenentes e perto de uma centena de praças. Cada um deles tem uma amante. Na hora da refeição, cada qual toma conta de uma das mesas com a respectiva. O pobre do soldado e mesmo do oficial que saiu da linha de frente para gozar de uns míseros quatro dias, depois de passar mais de dois meses na linha de frente, tem que se sujeitar com essas imundices.

 

 

O único serviço que funciona lá para a retaguarda é o Banco do Brasil. Assim mesmo porque os seus funcionários são todos paisanos. O correio todos já sabem como é. A correspondência chega com vários meses de atraso, assim mesmo quando chega. As encomendas chegam às vezes, quando não têm valor.

O Serviço Especial existe só para constar e para permitir o encosto de alguns apadrinhados. Até hoje não deu um ar de sua graça. De vez em quando dá um show para o QG recuado, que está em Pistoia, a 40 quilômetros da linha de frente.

Os jornais, todos controlados pelos chefes, só dizem aquilo que eles querem. Trazem bonitas frases incentivando-nos ao cumprimento do dever. Eles, porém, lá atrás estão. São capazes, sim, de suas privilegiadas cabeças tirar bonitas frases, porém de vir botá-las em execução não. Uma delas é assim: “Pedimos para vir à guerra, lutamos com entusiasmo e temos certeza de vencer”.

Que eu saiba nenhum dos que está aqui na linha de frente pediu guerra, nem fez passeatas na Avenida Rio Branco fazendo o V da vitória. Os que assim procederam, ou ficaram no Brasil, porque na hora H não tiveram coragem de enfrentá-la, ou estão lá para a retaguarda em belas cidades. Ninguém me tira da cabeça que o indivíduo que escreveu esta frase é um destes.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO SEGUNDA-FEIRA, DIA 24 DE JANEIRO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm



Escrito por ... às 01h09
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Campolemisi, 17 de janeiro de 1945

 

Vista de Pistoia

 

A grande tocha. Depois da primeira refeição do dia, que foi às 8 horas, partimos com destino a Campolemisi. Havíamos sido dispensados pelo capitão por oito dias. Íamos rever nossas namoradas. Depois de 45 dias nas posições, estávamos saturados daquilo tudo. O nosso espírito pedia paz e diversões. A paz, teríamos nos afastando o mais possível do front. A diversão, encontrando gente amiga que nos alegrasse.

Com o sargento Otacílio, o cabo Gabrielon, o Daniel e o Ditão, tocamos para longe da frente. Fomos até Ponte Venturina, onde seria mais fácil encontrar qualquer condução para Pistoia. De fato, isso se deu e tomamos logo um caminhão americano que ia com destino àquela cidade.

Lá fomos nós contentes. Às 11 e 45 chegamos a Pistoia. Tínhamos que pegar outro caminhão que fosse para Lucca. Antes, porém, resolvemos tomar um pouco de vinho. Há tanto tempo que não sentíamos o gosto do álcool. Entramos numa casa e bebemos uma botiglia. Depois comemos uma ração K. Antes de sair, compramos uma garrafa de conhaque e outra de “ifrega”*. O nome não é bem esse, mas nós assim o denominamos.

Fizemos uns 500 metros a pé. Conseguimos afinal pegar um caminhão de uns marroquinos que iam para Livorno. Continuamos a beber e a andar. Quando descemos em Lucca estávamos todos num pau só. O Gabrielon não conseguia se manter de pé, sendo necessário conduzí-lo entre dois outros. E assim fomos pelo meio da cidade, sendo olhados por todos que passavam.

Resumindo: chegamos a Campolemisi depois de passarmos fome e frio, depois de andarmos vários quilômetros a pé. Enfim, sofremos muito. Poderíamos ter desistido no caminho, porém a têmpera do infante faz com que ele vá para a frente, atingindo o objetivo designado, mesmo enfrentando os maiores perigos e cruéis sofrimentos.

Havia alguma coisa que me fazia prosseguir, apesar do cansaço. Era ela, a Ana.

Devo, pois, explicar quem é Ana. É um botão de rosa. Tem 17 anos, cabelos pretos e ondulados, uma voz doce e melodiosa. Seu rosto é um rosto de boneca. Nariz pequeno e levemente arrebitado, boca pequena, porém sensual. É, na opinião de todos, a garota mais bonita de Campolemisi.

*Provavelmente Strega

 

SEGUE RELATO NO MESMO DIA



Escrito por ... às 12h32
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Campolemisi, 17 de janeiro de 1945 (continuação)

 

Enfim, depois de enormes sacrifícios, lá chegamos. Que festa! Que alegria! Fiquei louco quando meus olhos pousaram de novo naquela figurinha de meus sonhos. Passei vários dias feliz e esquecido de tudo que se passava em roda. Dancei várias vezes. Dá prazer dançar naquela paz. O sonador da fisarmonica é o Osvaldo, de Basso Matana. Toca que é uma maravilha! No seu repertório há vários trechos de ópera. O tratamento a mim dispensado foi o melhor possível. Deram-me a melhor cama. Deram-me o melhor vinho. Faziam tudo para me agradar. Lá se vivia como em casa. Dona Rose me tratava como a um filho. Todos os dias fazia questão de que eu comesse com ela. Mas a minha felicidade não podia ser eterna e acabou num instante.

Fisarmonica

Por um nada brigamos. Domingo, quando íamos dançar em Basso Matana, durante a viagem pra lá entramos em desacordo. No momento de raiva, rasguei-lhe a carta que me havia escrito e devolvi-lhe a fotografia.

Não me arrependo do que fiz. As italianas não são como as brasileiras. A noção de moral é muito mais rudimentar (no meu ver). Elas dizem que isso é civilização adiantada. Assim fui em busca da felicidade e voltei com o coração dilacerado.

Em todo caso a viagem não foi perdida. Encontrei pessoas amigas, que me fizeram lembrar minha pátria. Enfim, não se pode esperar coisa melhor de um povo diferente do nosso, tanto na língua quanto nos costumes.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO SEXTA-FEIRA, DIA 21 DE JANEIRO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm



Escrito por ... às 12h31
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