Iella, 28 de novembro de 1944
Quando regressamos de Florença, já a 4ª Companhia tinha sido mandada para Iella, onde estava na reserva da 4ª Corporação. Logo após chegarmos a Borgo Capane, deslocamos-nos para lá, onde ficamos acomodados em duas casas. Ali próximo ficava a ponte de Iella, que era sempre bombardeada pelos alemães. Sobrava sempre alguma coisa para nós.
Na casa onde estávamos ficava o depósito de sacos de uma companhia do 3º Batalhão do 11º RI. Quando lá chegamos para ver os cômodos para nossas tropas, soubemos que havia dois oficiais que se encontravam lá. Fomos ver quem era. Um era o Sólon, todo enrolado em mantas e com um passa-montanha no rosto. Parecia uma coruja. Este Sólon é da minha turma da escola. O outro era um tenente que não conheço, o tenente Marud. Ele é mineiro. Um dizia ter arginite e o outro tremores de frio. Mais tarde soube que ambos tinham era paura aguda em último grau.
O Sólon não me fez admirar, porque já na escola sofria do mesmo mal quando tinha que servir como condutor de muares. Não era capaz de conservar o seu muar atrás do outro, com medo do coice. Na manobra de Resende, quando progredíamos apoiados pela artilharia, os colegas que pertenciam a seu grupo dizem que ele se deitou no leito da estrada de ferro com receio das granadas. Pois bem, quando fomos entrar em posição, depois da corrida do Laurindo (11º RI), caíram algumas granadas nas proximidades da ponte de Iella. Na volta, quando fui procurá-los no quarto, não estavam, tinham esquecido doença e tudo e tinham se abrigado no subsolo de um outro prédio.
O Sólon, depois de andar no hospital, acabou indo para o depósito, de onde não mais saiu. Do outro não tive mais notícias. Dizem que nos hospitais há duas classes de doentes: os feridos e os com paura.
Agora vou contar a proeza do Laurindo, pois faço questão de não me esquecer mais dela. Uma manhã, estava ainda escuro. Tínhamos acordado mais cedo porque havia alguns homens que iam ser apresentados à 6ª Companhia para completá-la. Pois bem, estávamos pegando munição para esses homens, quando chega a Iella, de Jeep, um capitão que eu tinha conhecido na escola e procura pelo nosso capitão. Chega o nosso capitão e ele, afobado, diz: “Depressa, depressa! Caiu toda a frente! O nosso batalhão vem por aí pelas estradas. Não é mais possível resistir. Já combatemos toda a noite e nossa munição terminou”.
Ficamos todos espantados. Seria verdade que toda a frente havia caído, que os alemães vinham em direção a Porreta Terme? Rapidamente, pusemos as metralhadoras batendo a ponte, ponto obrigatório de passagem. Outras armas foram colocadas em pontos estratégicos.
Pouco a pouco começaram a chegar os soldados. Uns traziam apenas o fuzil ou a metralhadora. A maioria tinha deixado toda a bagagem, mantas e mochila. A moral dos mesmos estava muito abatida. Não queriam mais nada.
Quando estava chegando o pessoal de cima do morro, estava ainda escuro, o capitão disse a um tenente que vinha com um grupo de homens: “Você organiza um pelotão com este pessoal que está chegando e nós iremos resistir”. A resposta do tenente foi “não, não posso mais, três noites sem dormir comendo ração”. Vejam só! E nós passamos vários meses comendo de latinha e passando as noites quase sem dormir.
Foram todos encaminhados para Porreta Terme. Durante todo o dia ainda continuaram a passar. A 6ª Companhia, reforçada com o pelotão da nossa companhia, entrou em posição numas alturas logo ao Norte do rio.
Depois foram mandadas patrulhas para verificar o que havia e nada encontraram. Os alemães não tinham estado ali. Mais tarde, depois que o 3º Batalhão (6º RI) entrou em posição nas primitivas posições, encontrou equipamentos e armamentos deixados pelos mesmos. Só foram encontrados cadáveres de brasileiros. Nenhum tedesco foi encontrado. Foi simplesmente “burro branco”. Na afobação, os que estavam atrás atiraram nos da frente e assim gastaram toda a munição. Talvez tenha havido sim uma patrulha alemã. Porém, uma patrulha fazer correr um batalhão é muito forte.
PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO TERÇA-FEIRA, DIA 7 DE DEZEMBRO http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm
Escrito por ... às 11h05
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