Nós vimos a cobra fumar


Livorno, 21 de agosto de 1944 

 

Recebemos hoje um tenente americano, o tenente Taylor, que vai ser o orientador da nossa companhia. Ele verificou o preparo de nossa tropa, tanto técnico quanto físico. Creio que ficou satisfeito. Ele não fala nada do português, sendo difícil um entendimento mútuo. Depois, à tarde, fomos visitar o seu regimento, que estava de viagem para o front. O pessoal é muito alegre e brincalhão. O tal tenente vai ficar duas semanas conosco, finda a qual nós seremos transportados para a linha de frente.

 

 

À tarde saí de Jeep com o capitão e o tenente Cinézio. Dirigi o Jeep cerca de dez quilômetros. Fiquei muito contente, porque foi a primeira vez que dirigi um automóvel. Regressaram hoje de Gavita, onde tinham ido fazer um estágio, os tenentes Copérnico e Salies.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 22 DE AGOSTO



Escrito por ... às 13h00
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Livorno, 20 de agosto de 1944

 

Hoje, domingo, fui dar um passeio com alguns homens do meu pelotão. Saímos às 9.20 horas do acampamento. Fomos andando com o objetivo de chegar à praia. Demos uma grande volta, passamos por vários acampamentos, enfim chegamos à cidade de Vada. Na Praça de Garibaldi e na igreja de São Leopoldo estivemos. É uma igreja modesta, porém linda na sua simplicidade. Assisti a missa, a primeira que me foi dado ver rezada em italiano. O padre fez um sermão do qual não capisco niente. Depois fomos para a praia. Tiramos a roupa ali mesmo e caímos n’água. Foi um banho delicioso. Depois andei de barco bem umas duas horas. Finalmente às 14 horas regressamos ao acampamento, depois de beber um pouco de vinho na cidade.

 

Praia na região de Livorno

 

À tarde saí novamente com alguns homens. Fomos desta vez para outra direção completamente diferente. Depois de andarmos muito, de vermos um depósito de munição italiano, onde milhares de granadas se acham abandonadas, chegamos a uma casa, onde um casal de velhos nos ofereceu um bom vinho. Conversamos. Ele nos disse das maldades feitas pelos alemães e da miséria do povo italiano, coisas que há muito conhecemos. Disse-nos o velho, que aliás esteve na outra guerra, que esta terminará dentro de um mês. Acho, porém, muito otimismo dele. Mas acredito que no dia de Natal estarei no seio da minha família. O velhinho prometeu-nos todo o vinho que há em sua casa se a guerra terminar em um mês.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 21 DE AGOSTO



Escrito por ... às 00h53
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Livorno, 19 de agosto de 1944

 

 

Ontem fizemos a viagem para a frente. A parte da manhã foi destinada aos preparativos de embarque. Desmanchamos as barracas, limpamos o local do acampamento e nos preparamos para o embarque. Às 19 horas nós entramos nos nossos caminhões. Era um caminhão de oito rodas mais um reboque. Fomos no caminhão eu e mais 22 homens, cada um levando seu saco, sua mochila e mais o armamento. Os caminhões iam superlotados. Ainda por cima na hora do embarque caiu uma chuvarada que nos deixou completamente alagados. O nosso caminhão, por cúmulo do azar, não tinha a cobertura, tendo nós que enfrentar a tormenta.

Organizado o comboio, partimos com destino à linha de frente. Foram quase 200 quilômetros de viagem. Felizmente as estradas na Itália são muito boas, o que melhorou em grande parte a viagem. Saímos, como disse, às 19 horas e chegamos às 6 horas da manhã. Esta demora deveu-se ao desastre que houve no caminho. O caminhão que vinha um pouco a nossa frente era dirigido por um motorista que nunca tinha dirigido um caminhão. Além disso, dizem que ele bebeu um pouco. Pois bem, o tal caminhão vinha ziguezagueando na estrada, mostrando a todos a imperícia do motorista. Todos nós sentimos a aproximação de um desastre. O carro passava raspando as árvores.

Eram mais ou menos 11 horas da noite. Eu, já cansado, cochilava, quando fui acordado pelo motorista, que me disse: “Tenente, um caminhão virou”. O nosso carro se aproximou do local. Espetáculo horripilante. O caminhão havia saído da estrada e caído num barranco de uns cinco metros de profundidade. No cair, ele havia virado. Ao chegarmos vimos ele com as rodas para o ar. Gritarias, súplicas angustiosas. Saltamos todos e fomos levantar o caminhão, que imprensava alguns homens. Enfim, todos foram retirados e ali mesmo, na frente do meu caminhão, foram feitos os curativos de primeira urgência. Morreu no mesmo instante o motorista, ficando gravemente feridos vários homens. O tenente Pinheiro, meu colega de turma, feriu-se numa perna, porém o ferimento foi pequeno. Enfim, depois que os feridos foram conduzidos para o hospital, partimos.

Deste momento em diante não dormi mais, com a atenção voltada para a estrada. Tinha receio que o motorista cochilasse e fôssemos para fora da estrada. Além disso, o freio de pé do nosso carro não funcionava. Enfim chegamos ao local do nosso acampamento na província de Livorno, perto da cidade de Vada. Na viagem, passamos por várias cidades italianas. Grosseto é uma das mais importantes.

No dia seguinte, pela manhã, nos esperava um acontecimento importante. Nossa companhia foi escalada para prestar uma guarda de honra. Da minha companhia foi um pelotão e eu, como oficial. Foi constituída uma companhia com homens de todo o regimento. Deslocamos-nos para um campo perto da cidade. Aí formamos em linha de pelotões. Estávamos a espera da visita do ministro Churchill*. Ao meio-dia e poucos minutos chegou o grande homem. Acompanhava-o o general Clark, chefe do 5º Exército, ao qual pertencemos há algum tempo. Passou o ministro em revista as tropas. Tive-o a dois passos de mim, olhei-lhe nos olhos. Depois de falar às tropas que se achavam ali em forma, ele foi-se a passar em revista as outras tropas das outras frentes.

 

*Winston Churchill, primeiro-ministro britânico
 
 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 20 DE AGOSTO



Escrito por ... às 01h14
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Tarquínia, 17 de agosto de 1944

 

Hoje fomos avisados que amanhã nos deslocaremos para um local a 30 quilômetros da linha de frente. Há 25 dias os alemães ainda lá se encontram. Deve haver por lá grande quantidade de minas, representando isso grande perigo para nós. Disseram-nos também que a estrada por onde vamos está minada, havendo somente o local para a passagem do caminhão. Já recebemos nosso material. Eu, uma carabina calibre 30, de 15 tiros, semi-automática. Os soldados foram armados com fuzil calibre 30 Springheld. Os pelotões de fuzileiros são dotados de fuzis metralhadoras Browning calibre 30. O Pelotão de Petrechos tem agora grande poder de fogo, pois tem três morteiros 60, duas metralhadoras ponto 30, outra ponto 50. Há ainda na companhia três bazucas.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO QUINTA-FEIRA, DIA 19 DE AGOSTO



Escrito por ... às 18h50
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Roma, 15 de agosto de 1944

 

 

Fui hoje à cidade de Roma. Gasta-se duas horas e meia de viagem em caminhão. Fomos 26 oficiais do 6º RI. Durante a viagem, passamos por várias cidades semi-destruídas: Grosseto, Civitavecchia e outras. Civitavecchia está completamente destruída. Há apenas alguns prédios ainda de pé. A população toda abandonou a cidade. A estrada de ferro é um montão de destroços. Lá se vê vagões destruídos. As pontes foram todas dinamitadas. O que há de bom aqui na Itália são as estradas de rodagem. São largas e bem asfaltadas, sendo que elas correm ao longo de quase toda a Itália.

Chegamos a Roma e saltamos logo no Vaticano. É um território neutro, todo cercado de muros. Fica bem no centro de Roma. Entramos na Praça de São Pedro. É uma coisa imponente. Mais de cem colunas de cada lado. Há na praça mais de duzentas estátuas. No centro há um chafariz. Pouco além vê-se a Catedral de São Pedro, a maior do mundo, cuja construção se iniciou no Século XV. A igreja é a mais comprida do mundo. Há marcado no chão, ao longo da mesma, o comprimento das mais importantes catedrais do mundo. A segunda em tamanho é uma catedral de Londres. Dos lados há os altares, cada um mais belo. As pinturas são todas de Michelangelo. O primeiro altar é da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Representa a escultura a Virgem Mãe tendo aos braços seu Santo Filho. É um quadro belíssimo. Vê-se até as lágrimas caindo dos olhos da Senhora. A obra é de Michelangelo. Nos outros altares há pinturas em mosaico que são uma preciosidade.

Os monumentos aos papas falecidos são todos muito bonitos. Alguns têm de um lado uma moça com uma criança nos braços e rodeada de outras tantas. Representa a caridade. Do outro lado, outra com uma espada na mão, que representa a justiça. Um dos mausoléus é muito bonito, representa a morte saindo debaixo de um manto, com uma ampulheta nas mãos. Representa o seguinte pensamento: “Já é tempo”.

A cúpula da igreja tem mais de cem metros de altura e de lá de cima se vê toda a cidade de Roma. No centro, há o túmulo de São Pedro. Dizem que quando estas correntes foram colocadas uma junto da outra, se uniram. E realmente as duas correntes diferentes acham-se ligadas. Há também a espada que feriu Nosso Senhor Jesus Cristo, do lado.

 

 

SEGUE DIA 15 DE AGOSTO



Escrito por ... às 11h12
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Roma, 15 de agosto de 1944 (continuação)
 

Depois fomos ao monumento de Victor Emanuel, onde se encontra o “Túmulo do soldado desconhecido”. Ali, na Praça Veneza, é que Mussolini fazia discursos aos fascistas. Fomos ao Coliseu, que é muito lindo, e ao Templo de Vesta.

A cidade nada sobre a guerra. No Coliseu era onde se realizavam os torneios antigos, as lutas de gladiadores e as lutas contra feras. E também as lutas mortais. Para isso enchiam o recinto com 50 centímetros de água. Esses torneios eram todos assistidos pela população e pelo imperador. Na parte de baixo ficavam as jaulas das feras. Em torno do estádio havia vários mastros. Havia uma turma de homens especializados para estender uma cobertura. No estádio há duas portas. Uma pela qual entravam os concorrentes e outra pela qual saíam, se mortos. Se ficassem com vida, mesmo que feridos, regressavam pela porta de entrada. Se durante a disputa um dos concorrentes corria a se abrigar nessa primeira porta ele não era morto. A história diz que ali foram torturados os católicos, também trucidados. Porém não há prova disso, sendo de se supor que não seja verdade.

Muitos séculos depois, como havia muito roubo dos mármores de que era feito o estádio, o papa declarou o lugar santo e foi erguida uma cruz. Vários palácios de Roma foram construídos com os mármores tirados do Coliseu.

 

 

Há o templo das vestas, que deviam se conservar virgens e conservar o fogo sagrado. Se não cumprissem essas leis, eram condenadas a serem enterradas vivas. Uma delas se converteu ao catolicismo e foi sacrificada. Há os Arcos do Triunfo, pelo qual passaram os heróis depois de voltarem vitoriosos de suas campanhas. O Arco de Juno e o arco de todos esses anos, tem esculpidas as fases das grandes batalhas, pelas quais pode-se reconstituir toda uma batalha.

Na igreja de São Pedro In Vinculis há uma célebre obra de Michelangelo, o Moisés. Representa o momento em que Moisés, descendo do monte com as tábuas sagradas, encontra seu povo completamente pervertido, adorando animais e em completa embriaguez. Ao ver o estado de seu povo, Moisés quebrou as tábuas sagradas. É este momento que representa a estátua. Dizem que Michelangelo, ao terminar sua obra, ante a perfeição da mesma, disse: “Moisés, por que não falas?” Como a estátua não falou, ele deu-lhe uma martelada no joelho. Essa martelada no joelho vê-se realmente. Este monumento foi protegido pelos italianos devido ao perigo dos ataques aéreos.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO TERÇA-FEIRA, DIA 17 DE AGOSTO

 



Escrito por ... às 11h12
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