Nós vimos a cobra fumar


Oceano Atlântico, 2 de  julho de 1944

 

Desde o primeiro dia eu comecei a dar serviço no compartimento onde estava minha companhia. Este serviço me traz uma vantagem: eu faço três refeições, enquanto que os outros só comem duas vezes por dia. O serviço, porém, é no outro dia, pois passamos grande parte da noite acordados num compartimento todo escuro. Ainda por cima temos que agüentar um calor insuportável.

 

Foto do navio General Mann antes da partida do porto do Rio

 

Ao acordar, domingo, soube que o navio já tinha desatracado no porto. Eram 9 horas da manhã. Levantei-me rapidamente e subi ao tombadilho. Já estava longe o Pão de Açúcar. Meu Brasil, meu querido Brasil, representado na cidade do Rio de Janeiro, ia ficando pra trás. Talvez se eu tivesse acordado um pouco mais cedo eu visse o Cristo Redentor, no alto do Corcovado, nos abraçando e desejando para todos nós uma feliz viagem. Pensei nesse momento: Será que eu voltarei a ver este Pão de Açúcar amado? Não sei. Talvez.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO SEXTA-FEIRA, DIA 9 DE JULHO



Escrito por ... às 01h25
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Rio de Janeiro, 1º de julho de 1944

 

 

Coube a mim um camarote do qual fazem parte mais 11 camaradas, todos tenentes, como eu: o tenente Nilo, da minha Companhia, um velho que é soldado de verdade, um amigo do qual pode-se dispor a qualquer momento; o tenente Copérnico, um nosso companheiro também de minha Companhia; o tenente Salies, um companheiro para tudo, da turma que saiu da escola antes da minha; o tenente Pérsia, também da turma anterior; o tenente Junqueira, da minha turma e que foi meu companheiro de quarto na escola; o tenente Pinheiro, também da minha turma; o tenente Prado, um dos dentistas do nosso Regimento, sempre contando seus casos de amor; o tenente Camarra, o outro dentista do Regimento, ficou enjoado e só ficava deitado na cama pedindo para todos nós maçãzinha; o tenente Bicalho, o médico do Regimento, foi promovido a 1º tenente e no dia seguinte já estava usando as estrelas, ficou sendo para todos nós o “major” Bicalho; o tenente Mário, da reserva de 2ª classe; o aspirante Mesquita, da reserva, como contador de lorotas não havia outro, metido a saber inglês (do qual nenhum de nós entendia nada).

Para nos fazer levantar pela manhã, tocam na corneta umas notas à americana e, depois, uma voz diz: “Alvorada, alvorada! Os praças devem se preparar para o pequeno almoço!”

Ficamos o dia no pátio. É sábado. Eu me lembrei da nossa pracinha, que naquela hora devia estar regurgitando de meninas bonitas. O cinema lá estava à minha espera.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 2 DE JULHO 



Escrito por ... às 08h12
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Rio de Janeiro, 30 de junho de 1944

 

Após preparativos no quartel, partimos. O momento da partida não me sairá jamais da lembrança. Aquele azáfama de lacrar portas, de queimar os papéis que iríamos deixar e limpar o alojamento todo, isto nos deixava um pouco tristes. Porém, sentia-me contente por embarcar para defender o meu Brasil.

Às 9 horas, mais ou menos, embarcamos. As companhias e os pelotões com seus comandantes a testa se deslocaram para a estação que há atrás dos quartéis da Vila Militar. Que impressão que eu senti ao ver o trem que nos conduziria para o navio!

 

Formatura dos pracinhas brasileiros para a partida do quartel

 

A tropa embarcou rapidamente. Todos iam contentes e felizes. De vez em quando, um soltava uma piada que a todos divertia. Neste momento, eu me lembrei dos meus amigos que eu deixava no Rio: o “Americano”, o Luiz, o George, o Paulo, o “Broinha” e todos os outros da turma dos “marimbondos do amor”. Lembrei-me da vida que levara até aí, das farras que juntos fizemos, dos bailes a que fomos juntos. Lembrava-me principalmente dos sábados e domingos. Sábado à noite havia sempre uma festa para irmos. Lembrei-me de um baile que fomos em uma casa de família no dia de São João. Enfim, lembrei-me de todo o meu passado. Iria seguir para uma terra desconhecida, onde se falava uma língua diferente da nossa e os costumes seriam completamente diferentes. Adeus, minha Praça Sães Peña, adeus!

Enfim, embarcamos no trem. As janelas foram todas arriadas e as luzes apagadas. Naquela penumbra que se formou, mais recordações surgiram no meu cérebro. O trem lentamente se deslocou. Os soldados, curiosos, mais uma vez queriam ver aquele Rio de Janeiro que deixávamos para trás, e olharam discretamente pelas janelas.

Depois de alguns minutos de viagem, entramos finalmente no cais. Lá estava a nossa espera o navio que iria nos conduzir aos campos da Europa. E ao vê-lo tão imponente, a nossa espera, meu coração transbordou de alegria. Iria finalmente realizar o meu grande sonho. Companhia por companhia, penetramos no grande monstro.

 

Embarque das tropas brasileiras no navio General Mann

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 1º DE JULHO 



Escrito por ... às 13h24
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Rio de Janeiro, 29 de junho de 1944

 

 

Estamos hoje de prontidão às 5 horas da tarde. A informação que nos foi prestada era que iríamos passar 15 dias no campo, tendo instrução no âmbito do Regimento de Infantaria, porém nós tínhamos a impressão que seria o embarque para os campos de batalha. O meu capitão deu-me três horas para ir em casa me despedir de minha família.

Encontrei em casa somente minha mãe e a Marcília. Foi dificílimo abordar o assunto que me levava a casa. Já sabia que minha mãe não resistiria à minha partida. Quando entrei para a Escola Militar, levou tempo para que ela se acostumasse a passar a semana toda sem me ver e sem ter notícias milhas. Era preciso telefonar todas as quartas-feiras dando notícias, pois, se não o fizesse, era certo ela lá aparecer na quinta-feira, à hora da saída, após o jantar. Nem me recordo como fiz ver a ela que devia partir. Creio que balbuciei apenas algumas palavras. O tempo era tão curto. Não foi possível me despedir de meu pai e de meus avós.

 

 

Prestei a ela as últimas informações sobre como deveria fazer para se corresponder comigo. Ao me despedir, ela não resistiu e, chorando, me disse: “Vai, meu filho, vai”. Saí com os olhos cheios d’água, não por ter que me ir, porém por saber que minha mãe ficaria sofrendo com a minha ausência. Ela, que há 20 anos não se separava de mim.

Depois de passar pela cidade e comprar as últimas coisas para o meu uso pessoal, dirigi-me para o quartel. Na cidade, encontrei-me com o tenente Nilo, indo com ele comprar os objetos de necessidade. Não embarcamos neste mesmo dia. Somente o 1º Batalhão se deslocou nesta noite. Dormi ainda no quartel, com o coração e o pensamento voltados para o meu lar.

 

PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 30



Escrito por ... às 01h15
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