Nós vimos a cobra fumar


Durante mais de um ano, de 29 de junho de 2004 a 19 de julho de 2005, este blog reproduziu, dia-a-dia, exatamente 60 anos depois, o diário de guerra escrito pelo meu pai, Italo Diogo Tavares, durante a campanha da FEB na Itália. Agora, além de contar com este site para consulta, o internauta também pode visitar a edição on line do diário, que tem o título de “Nós vimos a cobra fumar – diário de um jovem tenente brasileiro na Itália durante a II Guerra Mundial”. Para acessar, basta clicar na ilustração acima. A versão em livro, lançada no dia 1º de dezembro, também já está disponível e pode ser encontrada na livraria Pérola Negra, em Salvador. O livro também poderá ser adquirido através da internet, no endereço www.popmidia.com.br . Um abraço. 

Eduardo Diogo Tavares



Escrito por ... às 13h24
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Complemento

(Um diário esquecido)

 

Foram 239 dias de combates. Ao todo 483 soldados brasileiros morreram. Ítalo voltou ao Brasil disposto a continuar a carreira militar, sua vocação de vida. Após a guerra, ele serviu em Caçapava (SP), onde conheceu a paulistana descendente de italianos Theodosia Provasi. Com ela casou no dia 28 de maio de 1947 e teve cinco filhos: Edna, Eliane, Elcio, Edson e Eduardo. Durante os anos na ativa, também serviu no Rio de Janeiro (RJ), Juiz de Fora (MG), Aracaju (SE), Brasília (DF) e Niterói (RJ). Entre os comandos, destacaram-se o 28º Batalhão de Caçadores (BC) e a 2ª Circunscrição do Serviço Militar (CSM). Entrou para a reserva no posto de coronel, em 11 de novembro de 1976, sendo administrativamente promovido a general. Viúvo, casou novamente no dia 7 de fevereiro de 1975 com a também viúva Maria Eugênia Barrow, com quem não teve outros filhos. Em 1995, a convite do governo da Itália, esteve naquele país participando das comemorações dos 50 anos da libertação do país. Faleceu aos 79 anos, no Rio, no dia 9 de maio de 2002, sendo promovido a marechal para efeito de benefícios.

O conteúdo do seu diário de guerra, sobretudo nas críticas à atuação do comando brasileiro, embora partindo de um jovem tenente, poderia ser comprometedor a um oficial do Exército. Talvez por isso, ou talvez por se constranger das paqueras e do jovem que era – este jovem certamente ficou em parte na Itália – ele só mostrou o diário à mãe. E foi através de dona Dega que a mulher e os filhos souberam alguma coisa da guerra, pois durante todos os anos de vida Ítalo jamais voltaria a comentar aqueles dias. No entanto não se desfez do seu relato. Ao contrário, manteve-o sempre bem guardado, assim como os documentos anexados, talvez ciente da importância futura que ele poderia ter para registrar historicamente um pouco da verdadeira atuação do Brasil na II Guerra Mundial.  

 

Italo, comandante do 28 BC, com o governador de Sergipe, Lourival Batista, e o filho Eduardo Diogo Tavares

 

Da última vez que estive com meu pai, no final de 2001, alguns meses antes dele falecer, perguntei mais uma vez sobre o diário. Eu disse que gostaria de ler e, talvez, editar. Ele sorriu e desconversou: “Não sei nem onde está”. Na linguagem silenciosa que desenvolvemos entre nós, era o mesmo que dizer: “Para que pressa? Ele está guardado. Um dia você vai ler”.

 

Eduardo Diogo Tavares,

Salvador, 28 de agosto de 2003



Escrito por ... às 11h28
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Atlântico, 17 de julho de 1945

 

 

 

É o último dia nosso a bordo. Todos estão radiantes, antevendo o prazer que irão ter ao rever as respectivas famílias. Cada um já tem um plano pré-estabelecido. Às 4 horas encontramos com um destróier brasileiro que veio nos dar boas vindas. É o primeiro contato com o Brasil. Amanhã, enfim, chegaremos, depois de centenas de noites passadas em claro e de cruentos sacrifícios. Isto tudo, porém, será esquecido quando estivermos de novo no aconchego do lar. Entrei de serviço às 22 horas e saí às 24. Vou dormir um pouco, pois amanhã será um grande dia.





Escrito por ... às 11h26
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Atlântico, 16 de julho de 1945

 

A viagem continua sem novidades. Houve cinema hoje para os oficiais, às 18.30. Filme muito bom. Como sempre filme-revista, pois nós compreendemos pouco, ou, dizendo logo a verdade, nada entendemos do inglês. Soube hoje que a chegada será dia 18 às 8 da manhã. Já se ouve no rádio as estações brasileiras: a Nacional, a Tupi e outras. Ontem ouvimos a irradiação do jogo Flamengo e América, que infelizmente terminou com a vitória deste último.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 17 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 08h24
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Atlântico, 15 de julho de 1945

 

A viagem continua na mesma. Só se vê céu e mar. Aproxima-se porém, a largos passos, o dia da chegada, que jamais será esquecido por nós. Quando não estou de serviço procuro dormir, porque assim o tempo passará mais depressa. Sempre à noite, após o jantar, há cinema para os oficiais. Vamos deitar geralmente às 10 horas.

Quando na cama deixo vagar o meu pensamento. Rememoro todo este ano passado na Itália, os poucos momentos de alegria e os muitos momentos de tristeza, de desespero. Penso comigo: Será que sou eu mesmo que estou aqui, que voltou ileso desta campanha, sem nem um arranhão? Alegro-me então e agradeço a Deus esta grandiosa proteção.

Lembro-me também, nestes momentos, com pesar e com saudades, dos companheiros mortos no cumprimento do dever: o Pinheiro, o Armando, o Bertisse, o Morais, o Tassini, o Rossin. As famílias destes bravos agora, no momento da nossa chegada, devem estar com o coração sangrando por não ver entre os alegres soldados que desfilarão a fisionomia dos seus entes queridos.

Hoje começamos a viajar ao longo da costa brasileira, porém um pouco afastado. Um dos oficiais da Marinha Brasileira disse-nos que só veremos terra no dia da chegada.

Agora a viagem está bem diferente da que fizemos quando fomos para a Itália. Agora não há mais escurecimento e podemos passear a vontade pelo convés apreciando o céu estrelado. A viagem agora se aproxima muito de uma viagem de recreio.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 16 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 08h58
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Atlântico, 14 de julho de 1945

 

Entrei em serviço hoje das 4 às 6 da manhã. Depois de dar o serviço, dormi um pouco até às 8 horas. Hoje, às 11.59, atravessamos o Equador. Desta vez não houve as comemorações que tivemos quando passamos pela primeira vez pela tradicional linha. Porém, agora a emoção foi muito maior, pois já estamos no hemisfério do nosso Brasil. Estamos assim cada vez mais próximos de nossa querida pátria. Houve um show para nós no refeitório. Esteve a festa muito animada: músicas americanas e brasileiras.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 15 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 10h08
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Atlântico, 13 de julho de 1945
 
Soldados embarcados para a volta

 

Acordei hoje às 6 horas, pois estava de serviço até as 8 horas. Assisti ao rancho do compartimento, depois fui por minha vez fazer a refeição. Esta manhã choveu um pouco. O navio está jogando muito, aumentando o número de enjoados. Depois do café fui me deitar um pouco. Às 11.30 subi ao convés para tomar um banho de sol. O sol hoje estava muito fraco. À noite vai haver um show para nós, os “pica fumo”. Vou entrar de serviço das 18 às 20 horas.



Escrito por ... às 10h06
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Atlântico, 12 de julho de 1945

 

Acordei hoje com o pescoço duro. Creio que devido à posição incômoda em que assisti ontem ao cinema. Passamos hoje pelo Cabo Verde. Como ele é bonito, todo verdinho. À noite houve cinema no convés. Houve também um show no salão de refeições, porém só de capitão para cima. Agora eles passaram novamente à frente. Fui dormir às 10 horas, pois estava muito cansado.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 13 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 07h22
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Atlântico, 11 de julho de 1945

 

O dia passou como os anteriores, na maior monotonia. Só se vê céu e água ou água e céu. Todas as manhãs tomamos banho de sol no convés para desentorpecer um pouco o corpo. Disseram que hoje ia haver uma tempestade, porém creiio que a mesma foi transferida sine die. Assisti hoje em pé e por entre duas pilastras o filme “Caçadoras de marido”, que já havia assistido no Brasil.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 12 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 22h32
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Atlântico, 10 de julho de 1945

 

Entrei de serviço hoje à 0 hora. Fiquei no compartimento até as 2 horas, depois fui dormir. Às 8 horas fui ao café. Depois estive no salão. Às 10 horas subi ao convés para tomar banho de sol com o Ismael. Lá estivemos até 11 horas, quando voltei para o salão a esperar o almoço. Ao meio-dia almoçamos um bife, purê de batata e salada. Depois da comida, um café com pão e finalmente um sorvete de creme ou chocolate. Logo que saímos do salão de refeições fui para o compartimento, onde fiquei até as 2 horas. Houve um exercício de postos de combate, porém somente para a tripulação.

Passamos hoje pelas Ilhas Canárias. Via-se perfeitamente as aldeias com suas casas brancas. A maior das ilhas é uma ilha montanhosa e relativamente grande. Soubemos hoje da explosão do cruzador Berios nas proximidades dos rochedos São Pedro e São Paulo. Dormi um pouco à tarde. Às 5.30 levantei-me, tomei um banho e me preparei para o jantar. Depois do jantar estive no salão algum tempo, indo depois assistir o cinema. Depois ouvi um pouco de rádio. À meia-noite fui dormir. Soubemos hoje de um “peixe” que o regimento vai para Caçapava. Todos os oficiais vão entrar de férias, com exceção do sub-comandante e do oficial mais moderno.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 11 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 10h45
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Atlântico, 9 de julho de 1945

 

Hoje pela madrugada atravessamos o Estreito de Gibraltar. Todos nós estávamos ansiosos para ver mais uma vez a importante fortaleza, porém como passou muito tarde nenhum de nós pôde ter este prazer. Já se nota a diferença do Mediterrâneo para o Atlântico. O navio agora está jogando muito mais. Em conseqüência começaram a aparecer os enjoados, os mesmos de sempre: o Elmo, o Junqueira, o Câmara.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 10 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 18h22
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Mediterrâneo, 8 de julho de 1945

 

Hoje às 4 horas entrei de serviço. Às 6 horas fui acordar o Onofre para passar-lhe o serviço. Depois voltei para a cama e dormi até as 8 horas, quando fui tomar o café. Em seguida voltei mais uma vez para o camarote, onde fiquei até as 11 horas. Então subi ao salão e joguei xadrez chinês com alguns colegas, enquanto esperava a hora do almoço. Às 12 horas almoçamos. Nós fazemos parte da segunda turma. A primeira é dos oficiais superiores e capitães. Depois do almoço estive ainda algum tempo no salão.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 9 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 15h58
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Mediterrâneo, 7 de julho de 1945

Entrei de serviço hoje às 6 horas da manhã. Às 7 horas começou o rancho dos praças do meu compartimento. Às 8 horas passei o serviço ao tenente Onofre e subi para tomar o café. Estive no salão de estar toda a manhã. Ao meio-dia foi o almoço.
Depois do almoço fui para o camarote e dormi um pouco. Às 14 horas houve um exercício de postos de combate. Estive assim até as 16 horas no compartimento dispondo o pessoal para o abandono do navio. Às 18 horas foi o jantar, após o qual entrei de serviço no compartimento até as 20 horas. Houve no salão um show brasileiro. Às 18.30 começou a sessão cinematográfica para os oficiais. Às 22 horas tomei café no compartimento do capitão. Às 23 horas fui dormir. Hoje à meia-noite os relógios devem ser atrasados em uma hora. Vou entrar de serviço às 4 horas.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 8 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 19h24
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Mediterrâneo, 6 de julho  de 1945

Caminhões levam as tropas para o embarque 

Acordamos hoje às 4.30 da manhã. Arrumamos as malas, entregamos as armas de campanha e fizemos uma rápida faxina na área do acampamento. Às 5.30 foi o café: um pouco de café com leite e uma fatia de pão com presunto.
Pela manhã começaram a partir os comboios que levavam o pessoal para o navio. Nossa companhia partiu no terceiro comboio, às 7.30 horas. Eu e o Onofre saímos às 9.40 horas. Passamos pelos acampamentos do 11º e do 1º RI. Chegamos às 11h30 no cais. Embarcamos logo pela ponte do centro. Fui designado para o camarote 213. Durante toda a tarde continuou o embarque da tropa. Recebemos a visita do embaixador brasileiro, que veio nos dar as suas despedidas. Vieram também os generais Cordeiro de Farias e Falconiere. O comandante de um regimento da 10ª Divisão de Montanha também veio dar-nos o seu adeus. Chico, o correspondente de guerra da BBC esteve conosco toda a tarde.
Às 18.30 horas o navio partiu do porto. Ao partirmos, foi cantada a canção do 6º RI. Vimos assim, pela última vez, aquele panorama tão conhecido: o Vesúvio calmo como sempre, tendo a seus pés Pompéia, a cidade do amor; do outro lado a ilha de Capri com sua célebre gruta azul, o encanto dos turistas.
Estou de serviço no compartimento C-30 2L, onde se encontra parte da companhia. Às 20 horas entrei de serviço no compartimento, onde fiquei até as 22 horas. Depois subi, fiquei algum tempo no salão de estar dos oficiais. Às 22.30 já estava na cama.



Escrito por ... às 19h23
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Nápoles, 5 de julho  de 1945

 

Choveu muito hoje no acampamento, coisa que não acontecia há uns 15 dias. Às 13.30 a chuva passou por completo. Às 14.30 partiu o destacamento precursor. De cada compartimento foram dois oficiais. Amanhã será o embarque do grosso da tropa. À noite tem feito muito frio. Eu, como só tenho uma manta, sou obrigado a bater queixo toda a noite.

PRÓXMA ATUALIZAÇÃO AMANHÃ, DIA 6 DE JULHO DE 2005 http://diogotavares.sites.uol.com.br/diariodeguerraPRINCIPAL.htm 



Escrito por ... às 00h20
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